O AUTO DO ENGANADOR 

 

Mestre de cerimônia 

 

Boa noite, cavalheiros, 

boa noite, cada senhora, 

sejam benvindos ao Auto 

que eu vou narrar agora. 

 

Nesta noite especial 

peço a sua atenção, 

porque o que cantarei 

pode lhe dar salvação. 

 

Neste mundo tão bonito,  

que foi criado por Deus, 

Ele o fez como presente 

para todos filhos seus. 

 

Porém, somente uma coisa 

ao homem Deus lhe pediu: 

não comessem certo fruto, 

mas o homem transgrediu. 

 

Ouvindo o Enganador, 

que de Deus é inimigo, 

pensou que fosse aquele 

um seu verdadeiro amigo. 

 

E porque foi enganado 

e a Deus desobedeceu, 

o homem perdeu o céu 

e as dores conheceu. 

 

Mas eu digo, nesta noite, 

que todo homem Deus ama 

e o quer de volta ao céu, 

por isso sempre o chama. 

 

Porém digo a vocês 

prestai sempre atenção, 

pois o inimigo de Deus 

quer a sua danação. 

 

Vai enganar a vocês 

para ter a sua alma, 

mas confiem no Senhor, 

mantenham sempre a calma. 

 

Hoje eu conto a história 

de um jovem, Severino, 

enganado pelo Cão 

desde que era um menino. 

 

Severino 

 

 

Eu me chamo Severino 

e em bebê fui batizado, 

poque minha santa mãe 

me queria ajuizado. 

 

Aprendi o que é bom, 

a respeitar o Senhor, 

e também a todo mundo, 

vivendo sempre o amor. 

 

Mas o Encardido, astuto, 

a mim armou armadilha 

para que eu nela caísse 

e fosse de sua quadrilha. 

 

Vendo minhas tantas quedas, 

minha mãe por mim rezava, 

entregando-me a Jesus 

e à Maria a mim confiava. 

 

Aprendi em minha vida, 

por minha mãe ensinado, 

que Deus tem misericórdia 

dos filhos que hão em pecado. 

 

Eu não sou pessoa má, 

mas eu sou um pecador, 

não porque eu assim queira, 

mas devido ao Enganador. 

 

E assim eu me confio 

sempre ao meu Deus e Senhor 

para me livrar do mal 

na vida e quando eu me for. 

 

Mestre de cerimônia 

 

Hoje o nosso Severino 

deixará esta sua vida, 

e será o seu destino 

conforme a sua lida. 

 

O Enganador 

(vestido de branco, imitando Jesus,  

mas com um rabo vermelho fora da túnica) 

 

Eu adoro este momento, 

quando se apresenta a morte, 

pois que o homem pecador 

fica entregue à própria sorte. 

 

Cobrarei, neste momento, 

o preço de sua alma, 

pois fez o que eu lhe pedi 

e está confuso e sem calma. 

 

(O Enganador, falando a Severino com falsa mansidão) 

 

bem-vindo, Severino, 

eu estava à sua espera 

para a você dar um prêmio 

algo que a tudo supera. 

 

Severino 

 

Eu posso estar enganado, 

mas eu acho que o senhor 

é Jesus de Nazaré,  

meu único Redentor. 

 

O Enganador 

(olhando para o povo e sorrindo com malícia) 

 

Este pobre Severino 

acredita em quimera. 

E eu digo a vocês: 

está perdido, já era. 

 

(e soltando uma gargalhada diabólica,  

dirige-se ao Severino, falando em tom de bondade) 

 

Você me viu muitas vezes 

e por isso me conhece; 

vou levar você agora 

para o que você merece. 

 

(Severino expressa muita alegria e o Enganador,  

olhando para o povo, faz um gesto para mostrar que está conseguindo mais uma vez enganar o pobre homem) 

 

Você quer agora ir 

 em minha casa habitar 

por toda a eternidade 

sem um instante hesitar? 

 

Severino 

 

Eu acho que nem mereço 

 em sua casa habitar, 

pois ao longo de mi’a vida 

quis o mundo aproveitar. 

 

O Enganador 

 

Ao contrário, eu te digo 

que você é merecedor 

do que irá receber 

de todo o meu amor. 

 

(e dizendo isso, o Enganador olha para o povo e pisca um olho, insinuando que Severino está acreditando em tudo o que ele fala) 

 

Pois então, siga meus passos 

e eu te conduzirei 

para a festa de meu reino 

te tratando como rei. 

 

(Ao virar-se o Enganador de costas para Severino,  

este lhe vê o rabo vermelho saindo por trás da túnica alva. 

Olhando para o povo, Severino aponta o rabo 

e faz uma cara de espanto, permanecendo parado. 

O Enganador se volta novamente para Severino) 

 

O que está acontecendo,  

por que está aí parado? 

Venha logo atrás de mim 

e será recompensado. 

 

(Severino olhando para o povo,  

faz um gesto de que vai tentar enganar o Enganador) 

 

Melhor pensando estou 

que não sou merecedor, 

de viver na sua casa 

pois eu sou um pecador. 

 

Eu vou seguir o caminho 

para longe do senhor, 

e viver na eternidade 

chorando a minha dor. 

 

O Enganador 

 

Você está pensando errado 

e eu estou te garantindo 

que se não vier agora 

de mim vai estar desistindo. 

 

Severino 

 

Pois desistindo estou 

de seu caminho seguir, 

porque eu sei que você é 

Satanás a me extorquir. 

 

O Enganador 

(retira a túnica e mostra-se com sua roupa vermelha, irado) 

 

Você não pode fugir 

de mim, pois a mim pertence. 

Eu sou dono de sua alma 

e a mim você não vence. 

 

Severino 

 

Por mais que eu tenha pecado, 

foi você que me tentou, 

mas batizado eu fui 

e de Deus apenas sou. 

 

Hoje entendo a oração, 

que minha mãe ensinou, 

louvando Nossa Senhora, 

que seu filho me tornou. 

 

Pedi a ela proteção 

em todo passo e sorte, 

e que cuidasse de mim 

na hora da minha morte. 

 

Vai de retro, Satanás, 

pois se um dia eu pequei 

não foi minha opção, 

mas porque a você escutei. 

 

Você é enganador, 

mentiroso e perverso, 

que promete liberdade, 

mas nos dá o que é inverso. 

 

Eu recorro a Jesus Cristo, 

meu Senhor e Salvador, 

e à Sua Mãe Santíssima, 

que me livre deste horror. 

 

(o Enganador grita e protege o rosto  

quando ouve a invocação do pobre Severino) 

 

Hoje eu perdi sua alma, 

mas outras conquistarei, 

pois as tento com o pecado 

e a mim eu as trarei. 

 

(o Enganador sai do palco e retorna o Mestre de Cerimônia, 

que coloca-se ao lado de Severino) 

 

Assim acaba esta história, 

que teve um feliz final, 

pois não se deixou enganar 

 Severino afinal. 

 

E saibam todos vocês 

que a luta contra o mal 

prossegue até a hora 

da respiração final. 

 

Não deixe que o Enganador 

cobre a sua vida eterna 

dizendo que é o dono 

de sua alma e a governa. 

 

Obedeça a Jesus Cristo, 

 Sua Mãe Maria ame. 

Se caírem no pecado 

erga as mãos ao céu e clame. 

 

Pe. Nelson Ricardo Cândido dos Santos 

madrugada de 30 de agosto de 2024