Eu lembro de uma lata,
nos tempos de minha infância,
que entrou em minha história
qual sacramento e mistério.
Não conheci seus sabores,
mas ela guardava histórias
de alguns distantes parentes
que a morte há muito colhera.
Recordo ainda, de outra,
a lata de minha avó,
cheia de agulhas e linhas,
usadas em suas costuras.
Tão proibidas aos pequenos,
exerciam um fascínio,
menos por suas belezas,
mais pelo que elas continham.
Tanto zelo e cuidado,
creio que não mais existem;
embora nada mais guardem,
eu as guardo na memória.
(23/06/2024 - tarde)
Era uma vez uma lata,
cuja história contarei
e não estranhe este fato,
pois sua vida constatei.
Surgiu ela de uma chapa
metálica e muito fina,
moldada corpo e tampa
para cumprir sua sina.
Após estar concluída,
recebeu bela pintura
de paisagem bucólica,
pronta para sua ventura.
Junto com suas irmãs,
em caixa foi colocada
de papelão ondulado,
ficando lá estocada.
Somente após alguns dias,
a caixa foi transportada
para uma grande empresa
à qual fora destinada.
Em uma esteira rolante,
foram as latas deitadas.
Até chegar seu momento,
ficavam angustiadas.
Qual a razão dessa angústia?
Nenhuma delas sabia
para o que foram criadas;
isto lhes dava fobia.
Ao chegar a vez da lata –
desta nossa heroína –
sentiu ser toda preenchida:
que alegria genuína!
A seguir, ao ser tampada,
soube que o seu destino
era sabores guardar
de um biscoito muito fino.
Sim, nossa lata foi feita
com requinte e com pinturas
que despertavam, ao vê-la,
ideia de gostosuras.
E gostosuras havia
dentro de nossa amiga:
biscoitos amanteigados
feitos à moda antiga.
Mais uma vez embalada foi,
junto com suas irmãs
em caixa de papelão,
mas envolvidas em lãs.
Este tecido suave
tencionava proteger
toda a beleza das latas
para os que haviam de as ver.
Em uma loja de doces
famosa por seu requinte
foi a lata enviada
com outras, fazendo vinte.
Não eram todas iguais
as latas que lá estavam,
mas cada uma julgava-se
mais linda; e se exaltavam.
Que alegria indizível
sentiu esta nossa lata,
quando alguém a comprou,
sentindo-se muito grata.
A lata foi embrulhada
em papel de seda florido
e recebeu belo laço
de um cetim colorido.
Ah, ansiedade imensa
a lata sentiu então,
pois cumpriria enfim
o que ia e seu coração.
Sentiu quando uma pessoa
deu a outra o embrulho,
que o tomou em suas mãos,
calma, sem fazer barulho.
Quando o papel foi aberto,
após desfeito o laço,
a lata sorriu em si
ao ver quem lhe deu abraço.
Quem tinha a lata ao peito
era uma linda velhinha,
com cabelos todos branco
muitas rugas em suas linhas.
Co’imensa delicadeza,
a lata ela abriu
e ao ver dentro os biscoitos
co’os olhos ela sorriu.
Quando mordeu um biscoito,
ela os olhos fechou,
respirou profundamente
e à sua infância voltou.
Depois, olhou para a lata
com grande admiração,
vendo-lhe a grande beleza
que alegrou seu coração.
Mais que sabores, a lata
dera àquela senhora
vislumbre de seu passado,
do que vivera outrora.
A linda lata foi posta
sobre uma mesa na sala
e todo o dia a velhinha
vinha à tarde abraçá-la.
Quantas lembranças ouvia
a senhora sussurrar,
quando a tinha ao peito
ou, ao biscoito provar!
Mas essa felicidade
durou somente alguns dias:
terminados os biscoitos
juntou-se a outras baldias.
Sim, pois que outras havia
dentro de um velho armário
e apenas raramente
saíam de tal calvário.
Um dia – Ah, finalmente! –
a velhinha escolheu
a nossa lata amiga
e uma missão lhe deu.
Tendo feito uns biscoitos,
quis alguns poucos doar
a uma querida amiga
a quem ia visitar.
Tanto tempo foi guardada
na escuridão de um armário,
pensou quer agora seria
útil no uso diário.
Que ansiedade feliz
dominou seu coração
ao pensar que levaria
alegria e afeição.
A senhora a forrou
com papel amanteigado
e sobre este colocou
os biscoitos lado a lado.
A velhinha pôs a tampa
com cuidado sobre a lata
e envolveu-a co’uma fita
e um laço cor de prata.
Ao chegar ao seu destino
pode ver, emocionada,
no rosto da que a ganhara
a alegria estampada.
Um biscoito a cada dia
foi sendo apreciado,
até que, certo menino,
comeu o resto, afobado.
Ficou triste a nossa lata,
pois pensou que voltaria
a viver em um armário
e esquecida estaria.
Mas qual foi sua surpresa
quando foi a escolhida
para guardar documentos
e fotos de uma vida.
Sempre que a sua dona
saía por afazeres
era na querida lata
que buscava seus haveres.
E assim, foram os anos
se passando e a lata,
qual a sua velha dona,
foi ficando mais pacata.
A idosa mal saía
de sua casa, tão cansada,
mas com a lata ao colo
lembrava a vida passada.
Quando a velhinha sumiu,
a casa ficou fechada
por um tempo muito longo,
com um cheiro de mofada.
A lata estava velha,
desbotada, enferrujada,
mal lembrando a beleza
de quando fora criada.
Certo dia, apareceram
pessoas desconhecidas
que andaram pela casa
tudo vendo, aborrecidas.
Anotaram o que havia
naquela casa de útil
e que seria vendida;
para o lixo, o que era fútil.
Ao verem a velha lata,
retiraram alguns papéis
e a jogaram num canto,
desprezando-a os cruéis.
Foi levada a um ferro velho
junto com outros metais
para reciclada ser,
sem danos ambientais.
Foi o fim de nossa lata
e da vida que levou,
mas eu sei que há um pouco dela
naquilo que a incorporou.
(julho de 2024)
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